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A chave d´aleluia

Ao toque da sineta, que soava ao meio dia, os alunos se espalhavam pelas ruas vizinhas da escola. Porém, os mais travessos, disfarçados no meio dos pés de maravilha, esparramados pelos terrenos, ao redor da igrejinha do largo da Santa Cruz, gritavam e repetiam, batendo palmas:

Zé prequeté

Tira bicho do pé

Pra comer com café!

Zé Duarte não ligava muito.Era a mesma turma que brincava com ele no pátio do recreio, no jogo de bola, no roda pião, na bolinha de gude, no pula sela, no pega-pega… Era a mesma criançada que ele amedrontava nas conversas do portão da escola, com histórias de assombração, ouvidas dos mais velhos, nas prosas acontecidas no bar da esquina, nos fins de semana. Além de prestar ajuda nos trabalhos do cemitério, pois o pai era coveiro oficial do cemitério da cidade, muitas vezes fora surpreendido, a dormir em um túmulo qualquer ou no poço do ossuário. Por isso, seu prestígio aumentara diante da molecada que o medo fazia se encolher, espremida no frio portão da escola. Em noites de lua cheia, quando as histórias começavam a caraminholar nos sonhos ruins, muitos garotos acordavam assustados, cobrindo de dúvidas e perplexidade os semblantes dos pais.

Como um eco a morrer pelas copas das árvores baloiçantes lá no pátio do recreio, as palmas e a gritaria amainavam-se paulatinamente.

Zé Duarte constantemente se assustava com aquela zoada toda. Entretanto, com sua risada rouca, parava de repente e olhava os pés achatados, cor-de-cinza e ainda molhados, quando a enxurrada corria pela sarjeta das calçadas. Sempre andou descalço, pois sapato nenhum cabia naqueles dedos esparramados e intumescidos. De vez em quando, a diretora da escola o pegava de jeito, colocava seus pés em água com bastante creolina e conseguia arrancar algumas batatas, com uma agulha de costurar saco. Assim mesmo, seus dedos continuavam carregados de bichos-de-pé. Sua mãe sempre dizia que, por isso, ele não conseguia aprender a ler nem escrever. Além de puxar o pai, que também não sabia nem ler nem escrever, a bicharada emburrecia o menino…

Afinal, ele não era alvo somente das brincadeiras e caçoadas da criançada da escola. A cidade toda já o conhecia, como sempre, dividida entre o mal e o bem, o bom e o mau, o justo e o injusto, o errado e o certo, a verdade e a mentira, o ladino e o ingênuo, o bobo e o sabido…

Havia, naqueles tempos, uma lenda sobre uma certa ferramenta que era capaz de desvendar qualquer mistério e trazia ventura para quem a possuísse, chamada “Chave d’Aleluia”. Acreditava-se que ela abriria todas as portas para realização de todos os sonhos.

Por isso, em todo final de ano e na páscoa, havia uma tradicional brincadeira que consistia em enviar para alguém, como presente-surpresa, a “Chave d’Aleluia”.

Como soe acontecer sempre, a brincadeira se transformou em zombaria, na variante dos trocistas de plantão. Na verdade, constituía uma galhofa muita bem urdida e acordada entre os participantes, a fim de palermar o entregador. Para tanto, transformavam em grande privilégio, ser escolhido para entregar, a “Chave d’Aleluia”, pois além da recepção carinhosa e amiga do receptor, ainda obtinha entusiásticos aplausos dos remetentes e, naturalmente, alguma gorjeta.

Nesses tempos, Zé Duarte, já adulto, tornou-se um alcoólatra inveterado. Muitas e muitas vezes havia sido recolhido das sarjetas, completamente embriagado. Além disso, mesmo após vários anos de escola e apesar de todos os esforços possíveis das professoras, continuava analfabeto.

Por isso tudo, ano após ano, Zé Duarte era o grande escolhido. De pacote embaixo do braço, lá ia ele, todo lampeiro, entregar a “Chave d’Aleluia”. Quando chegava ao destino, o receptor olhava, olhava e mandava-o para o outro lado da cidade, lendo, para ele, o nome escrito no embrulho. Na realidade, para alegria e satisfação de todos, os destinatários estavam combinados a fim de fazer o entregador andar ao léu, carregando aquele pesado volume.

Depois de muito andar, finalmente, numa última indicação, Zé Duarte conseguia encontrar o endereço da pessoa cujo nome estava escrito, no pacote, em enormes letras de forma. O destinatário escolhido que, naturalmente, não participava da chalaça e desconhecia a brincadeira, completamente surpreso com o inesperado presente, abria o pacote. Era um paralelepípedo muito bem acondicionado, amarrado com uma fita amarela, com a inscrição: “Para Presente”. Era só risada das pessoas que já antecipavam o sucesso da pilhéria.

Pelo jeito bonachão, o bamboleio no andar, a risada rouca sempre aberta em seu rosto, além de um leve retardo mental, Zé Duarte constituía o alvo predileto das palhaçadas urdidas pelos gaiatos da cidade.

Algumas vezes, só para ver a alegria espargir pelo seu rosto, espalhavam moedas pelo chão. Zé Duarte.guardava as moedas no bolso, sorria amarelo e entrava assobiando no primeiro bar. O dono do bar, embora constrangido, não podia deixar de vender para um freguês que colocava o dinheiro em cima do balcão…

Certa vez, o dentista da cidade, ao ver o Zé Duarte a estadear pelas redondezas, esquentou algumas moedas com o maçarico e jogou-as pela janela. Foi só risada das pessoas que já esperavam pelo sucesso da empreitada do dentista. Zé Duarte ficou mais de uma semana com os dedos enfeixados. Daí em diante, toda vez que via uma moeda pelo chão, cuspia nela e esperava… Se o cuspo não fervia, as embolsava. E isso tudo era uma festa!

De repente, sem ninguém saber, Zé Duarte desapareceu. Algumas pessoas assustadas trocavam opiniões à procura de explicação de seu sumiço. Alvo de tantas brincadeiras, nem sempre prazerosas, temia-se que algo desagradável tivesse lhe acontecido. Passaram-se meses de uma estranha e misteriosa ausência

Até que um belo dia, um rapagão, de gravata e paletó, com os pés enfiados em enormes botinas, descia pela rua do meio. Ninguém acreditava no que via. “Parece o Zé Duarte!” diziam alguns. “Não parece, não, é o próprio que apareceu na cidade, de repente”, asseguravam outros.

E os comentários se multiplicavam. “Vocês não se lembram que ele vivia bêbado, caindo pelas ruas?”

Na verdade, em vez das caçoadas e o incentivo para continuar a beber, algumas pessoas se apiedaram dele. Conseguiram interná-lo no Manicômio Judiciário do Estado, onde trabalhava um psiquiatra conhecido dos moradores da cidade, para tratamento de recuperação. Por isso, andou sumido por alguns meses e reapareceu agora, aparentemente recuperado.

No entanto, diante dos apelos e incentivos das mesmas pessoas que zombavam dele, não demorou muito para continuar bebendo, como antes.

Agora ele já não estava mais na escola, porém, a criançada ainda se lembrava dos tempos em que ele tirava da boca o pedaço de fumo que mascava e colocava em algum tinteiro, localizado em cima da carteira. A pelota sempre saía, pingando tinta, dependurada na pena de algum escrevinhador desavisado, manchando-lhe o caderno e sujando a tampa da carteira. E, ainda por cima, levava a culpa e o castigo.

Agora, aquela vozearia e palmas que fluíam do muro da escola, escondidas no meio dos pés de maravilha e disfarçadas atrás da igrejinha da Santa Cruz, pintavam muito mais como reminiscências.

Zé Prequeté

Tira bicho do pé

Pra comer com café!!

Zé Duarte, mais uma vez, não prestou muita atenção. Seu riso amarelo dizia que aqueles meninos eram seus amigos, alunos da mesma escola, meninos das mesmas ruas. Continuavam roubando frutas dos mesmos quintais, viviam debaixo das mesmas árvores, perseveravam nas mesmas brincadeiras, persistiam a escutar as mesmas histórias de assombração, apertados no portão da escola…

De novo, olhou para seus pés. Era só piririca que não saía nem com bucha nem com cacos de telha, que sua mãe esfregava, esfregava…

As batatas se multiplicavam em seus dedos inchados que já não cabiam mais nas botinas. Como eram grandes demais e não serviam nem para seu pai, viviam abandonadas num canto da sala.

Por causa de seus movimentos pesados e passos carregados, agravados pelo vício da bebida, tinha fama de preguiçoso e lerdo. Até seu pai, muitas vezes, perdia a paciência e berrava, quando havia pressa, em algum pedido. Por isso, lhe puseram o apelido de “Tartaruga.

Justamente porque tinha certeza que não fora invenção da criançada da escola, Zé Duarte odiava esse apelido. Ah! e como odiava…

Cada vez que passava pelo jardim, seus ouvidos, acostumados com o alvoroço de sempre, se surpreendiam com aquelas vozes estranhas que despontavam disfarçadas atrás de alguma árvore: “Tar-ta-ruuuu-ga”! “Tar-ta-ruuuu-ga!

Toda vez que isso acontecia, Zé Duarte olhava por todos os lados, tentando descobrir o galhofeiro. Então, com sua voz pesada e sincopada, bufava: “Que tarta que fio da puta!” Punha as mãos encurvadas sobre a boca e repetia, mais alto ainda: “Que tar-ta que fi-o da puuuu-ta!”

Os pardais barulhentos, na algazarra sonora das copas das árvores, transformavam, em repetidos ecos, o palavrão que ainda ressoava no calor do lusco-fusco.

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