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O Irreverente

Dona Maria I se chamava ela. Uma enorme cadela coberta de pelos loiros encaracolados. Com um sotaque do Porto e grandes bigodes pontudos, seu dono não podia disfarçar. Porém, seria admiração ou gozação? Jamais se descobriram suas verdadeiras intenções.

Afora tudo isso, a cadela honrava o nome. Era senhora absoluta do jardim e do pomar. Não havia nem justificativas nem lamentações. Imperavam os princípios universais da propriedade privada e as normas de sua defesa irrestrita. Ninguém se atrevia a passar, quanto menos a permanecer naquela área.

Seu assustoso tamanho e o jeito iracundo de roncar, arreganhando os dentes, com pose de dona do mundo, assustavam a todos e transformavam-na em uma guardiã tranqüila.

A única coisa que irritava Dona Maria I era aquele sanhaço. Atrevido, metido, irreverente. Chegou não se sabe de onde nem porque. Mas não dava sossego.

Uma hora, furava os caquis maduros do caquizeiro perto da cerca do fundo. Outra hora, beliscava as uvas maduras da parreira que ensombreava o terreiro. Ou, ainda, andava comprometido com um ninho instalado no galho mais alto do abacateiro.

Desde sua chegada, lá se foram água abaixo a tranqüilidade e a empáfia de Dona Maria I. Corria. Latia. De vez em quando, morta de cansaço, parava com a língua dependurada e a baba escorrendo pelo focinho.

Até que um dia, conseguiu surpreender o sanhaço. Avistou-o com a cabeça enfiada em um mamão maduro que, na certa, ele furara naquela manhã. Dona Maria I ficou em pé, com as patas dianteiras encostadas no tronco do mamoeiro.

– Ô… Ô… Ô… seu ladrão sem-vergonha!

O sanhaço tirou a cabeça de dentro do mamão, acabando de engolir uma semente.

– Ladrão, por que? Sem-vergonha eu seria se fosse filho de cachorra…

Dona Maria I quase mordeu a língua.

– Você está comendo o que não é seu. E quem come o que não lhe pertence, é ladrão, L A D R Ã O!

O sanhaço balançou a cabeça, atirando ao chão umas migalhas enroscadas no bico.

– Esta fruta está no ar. Seu patrão, por acaso, é dono do ar?

Dona Maria I fungou, assustando uma mosca esverdeada que rodeava seu focinho.

– Não está no ar, não, seu atrevido. Faz parte de uma planta que pertence ao meu patrão.

– Como você sabe? Por acaso, foi ele quem plantou?

Dona Maria I embasbacou. Não podia saber. Ninguém lhe havia falado sobre isso.

O sanhaço insistiu.

– Além do mais, qualquer planta nasce de uma semente. E uma semente pertence à fruta, se é que se pode dizer que ela tem dono…

Dona Maria I engoliu em seco. Algo zunia ao seu redor. Era a mamangava que ferroara o filho do patrão. E ela levara a culpa por não ter evitado.

Apontando a mamangava, o sanhaço continuou.

– E, ainda mais, quem semeia e poliniza plantas é o vento, são os pássaros como eu, e essa mamangava que vai carregadinha de pólen para fecundar as flores do maracujazeiro.

Depois de pensar bastante, Dona Maria I abanou o rabo de alegria, pois tinha certeza que havia conseguido um argumento irrefutável.

– Palavras… palavras… Tudo isso não passa de poesia, pois todas as plantas estão no terreno que é de meu patrão. Por isso, ele também é dono do mamoeiro!

O sanhaço abriu o bico, num bocejo descontraído.

– E quem deu a terra a seu patrão?

– Ninguém, seu bobo. Ele simplesmente comprou esta terra, por isso lhe pertence.

O sanhaço balançou a cabeça.

– Comprou de quem… que comprou de alguém… que comprou de ninguém… Quem foi o primeiro dono?

Dona Maria I balançou o rabo novamente.

– Sabei-me lá.qual foi o primeiro dono. Isso não vem ao caso. Só sei que o dono atual é meu patrão.

O sanhaço coçou a cabeça à procura de uma pena desgarrada.

– Não sei, não. Mas tenho a impressão de que seu dono é pior do que ladrão, porque comprou produto roubado. Ele é um receptador. Pois terra não é de ninguém. Os homens é que se apossaram dela. E, segundo você afirmou, quem se apossa do que não é seu, é ladrão, L A D R Ã O!

Dona Maria I latiu, ganiu, rosnou. Mas quem podia com esse sanhaço? Além disso, tinha asas. Ia para onde queria. No ar não havia cercas. Nem donos…

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Carlos de Morais



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