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UM CORONEL EM PEREIRAS

Imigrantes italianos tiveram presença marcante na cidade e município de Pereiras, no final do século XIX, justamente numa época efervescente em que se consolidava a República Brasileira. As eleições, nessa época, eram consideradas essenciais para o controle do governo, exercido por oligarquias, cujo poder econômico se assentava, principalmente, na riqueza gerada pelo café. Daí a importância do coronelismo, um sistema proliferado no tempo do Império que perdurou durante toda a primeira República. Segundo R. Faoro, no movimento que culmina com a política dos governadores, afirma-se o coronelismo, num casamento, “cujo regime de bens e relações pessoais será necessário determinar com as oligarquias estaduais”. Embora não seja novo, pois o coronel recebe seu nome da Guarda Nacional do tempo do Império, o fenômeno coronelista assume características peculiares, durante o período republicano.O coronel se integra no poder estadual, no qual o governador constitui a espinha dorsal da vida política. No âmbito municipal, o coronel fazia a política e complementava a administração pública, dentro dos Partidos Republicanos que, apesar dos conflitos internos, permaneceram no poder durante toda a República Velha. O coronelismo se manifesta num compromisso, uma troca de proveitos entre o coronel, chefe político, e o Governo Estadual, com atendimento dos interesses e reivindicações do eleitorado. As despesas eleitorais cabem, em regra, ao coronel por conta de seu patrimônio. Em troca, os empregos públicos, sejam os municipais ou os estaduais sediados na comunidade, obedecem às suas indicações. A situação política do coronel, portanto, se manifesta prioritariamente nos serviços de intermediação.O coronel, entretanto, como chefe político e senhor dos meios capazes de sustentar o estilo de vida de sua posição, nem sempre manda porque tem riqueza ou porque usa a intimidação violenta, mas manda, também, porque se lhe reconhece esse poder, num pacto não escrito. Esse vínculo que lhe outorga poderes públicos, acentuado e exacerbado no regime republicano, virá, essencialmente, do aliciamento e do preparo das eleições, evento básico para a política de então.  A força dos governos estaduais provinha do controle exercido sobre os coronéis, verdadeiros condutores das eleições municipais. Seu prestígio e poder eram proporcionais aos relacionamentos de amizade que mantinha com os candidatos da região e ao número de votos que podia conseguir, por meio dos célebres “currais eleitorais”, onde se obtinha o “voto de cabresto”.Estas e outras descrições, sobre as atividades dos chefes locais, demonstram claramente que o comportamento do coronel dependia quase que exclusivamente de sua formação moral. Muito embora seja passível de críticas, a atuação dos coronéis evidencia, com absoluta clareza, o poder político hegemônico, desse período, como parte de realidades de um país, cuja nova forma de governo, implantada em 1889, estava em consolidação. Estes fatos, de uma forma ou outra, repercutiram na cidade de Pereiras, onde o fenômeno do coronelismo também floresceu na figura de Carlos Muccini, um italiano de Castelnuovo de Garfagnana, naturalizado brasileiro. Seu pai, que já se encontrava por aqui, vindo como imigrante, apavorado com a carta que recebera da Itália, dando notícia de que o filho andava envolvido com idéias revolucionárias de um “maluco chamado Garibaldi” que, na época, já havia se transformado em herói, mandou buscá-lo. Então, Carlos Muccini chegou à Freguezia dos Pereiras, lá pelos idos de 1876 ou 1877.Talvez seja por esse “espírito garibaldino”, trazido dos dias tumultuados vividos durante a unificação da Itália, ainda repercutindo em toda Europa, que Carlos Muccini tenha rejeitado o título de Coronel e, desde cedo, tenha aderido aos ideais republicanos, apoiando o Manifesto Republicano, lançado no Rio de Janeiro.Em 1880, integrando-se às lideranças políticas de Sorocaba, Botucatu, Tietê, Tatuí e, sobretudo, Itapetininga com o coronel Fernando Prestes, filiou-se ao Partido Republicano Paulista, cuja importância crescera com a ascensão do Marechal Floriano Peixoto à presidência da República, garantida pelos votos da bancada paulista.Com toda cobertura política que possuía dos Governos Estadual e Federal, além do apoio dos eleitores, Carlos Muccini foi eleito vereador nas primeiras eleições municipais, em 1895. Em 1903 e 1904, foi eleito Intendente. De 1908 a 1916, com raras interrupções, foi eleito Prefeito. Mesmo depois de ter renunciado à Prefeitura, por ter sido nomeado Coletor Estadual, em 1916, continuou controlando a vida política do Município, pois seus amigos Fernando Prestes e Julio Prestes dominavam a política da região. Fernando Prestes fora eleito Vice Presidente do Estado e exercera a Presidência mais de uma vez. Julio Prestes foi eleito Deputado Estadual, em 1909. Como Deputado Federal, eleito em 1919, tornou-se líder da bancada paulista. Em 1927, assumiu a Presidência do Estado e, em 1930, foi eleito Presidente da República. Com a revolução de 1930, Carlos Muccini deixou a vida política e Julio Prestes foi exilado. Talvez um espírito de revanche ou a convicção do paulista legitimado e o filho adotivo lutando nas trincheiras tenham-no induzido a se envolver com entusiasmo na revolução derrotada de 1932. Seria interessante notar que, nesse ínterim, os Muccini, residentes em Castelnuovo, integraram duas brigadas dos partigiani que lutaram contra a ditadura fascista, implantada na Itália, por Benito Mussolini

Dois baques, em seqüência, acabaram derrotando o “velho guerreiro” que faleceu em 1936, infelizmente, sem ter participado da alegria e comemorações, do final da Segunda Grande Guerra, e pela vitória contra o nazi-fascismo.

Capella em 1830, Freguezia em 1876, Villa em 1889, Município em 1896 e Cidade em 1906, PEREIRAS situa-se entre as cidades de Botucatu e Sorocaba, na direção da Capital. Instalou-se na rota tropeira, até a chegada da ferrovia, quando se fixou nas imediações da E. F. Sorocabana, cuja estação ficava à distância de seis quilômetros. Coloca-se, hoje, entre as rodovias Castelo Branco e General Rondon, com acesso a ambas.



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