Cartilhas e o ensino da leitura
Faz muito tempo que nossas cartilhas têm sofrido duras críticas. Nem por isso, deixam de estar presentes nas mãos das alfabetizadoras, até os dias de hoje, algumas aliás, com vida bem longa. E, se até hoje, elas continuam vivas, não é culpa de suas autoras, mas sim porque infelizmente pouca coisa mudou nas relações sociais deste pobre país, embora a esperança de vê-lo integrado num mundo mais justo, superando seu subdesenvolvimento e dependência, não deva, por certo, morrer comigo.
Na década de 1960, tempo em que se endeusava o método global de leitura, em nome de fundamentos psicológicos, hoje, exauridos, foram as cartilhas condenadas e até proibidas, colocadas no índex da excomunhão pedagógica. Até o nome – cartilha – foi substituído, por implicar conceitos menos nobres sobre o ensino da leitura. Foi assim que apareceram os chamados pré-livros que, por sinal, tiveram vida curta.
Apregoava-se a abolição da cartilha, substituindo-a por um processo natural. A alfabetizadora, com base na conversação (ou diálogo, que exprime a pós-modernidade!), ia elaborando seu próprio pré-livro que se desenvolveria de acordo com as características de seus alunos, em atenção aos interesses infantis, descritos como última palavra da ciência pedagógica.
Apesar das críticas e mais os avanços da informática, com todas suas utopias e parafernálias, augurando uma nova pedagogia, na qual o ensino e a aprendizagem estão centrados numa tela, ainda a sala de aula permanece contida entre quatro paredes, o quadro negro, o livro e a fala do professor. E assim, não obstante carregar a pecha de ultrapassada e obsoleta, a escola, teimosamente, continua transmitindo o fundamental, o básico, a estrutura sobre a qual se construirá qualquer conhecimento posterior. Porque, na verdade, de nada valem as máquinas imaginadas pela tecnologia se o acesso a elas depende fundamentalmente da existência de certas habilidades, particularmente habilidades básicas como ler, escrever e contar…
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